ERAM seis horas da tarde.
O sol se punha rapidamente e a noite, descendo do céu, envolvia a terra nas sombras.
Soprava um forte vento de sudoeste, que desde o momento da partida atrasava a nossa viagem; nossa luta era contra o mar e o vento.
O velho pescador, morto de cansaço e de sono, estava quase sem forças; o seu remo, que no início saltava sobre as ondas como um peixe, agora apenas batia de leve na água.
Eu, recostado na popa, e com os olhos fixos na linha azulada do horizonte, esperando ver a cada momento aparecer o perfil do meu belo Rio de Janeiro, começava seriamente a ficar impaciente.
À medida que o dia terminava, que as sombras cobriam o céu, um sentimento de tristeza e melancolia da noite no meio das ondas, tomavam conta do meu espírito.
Nesses momentos de reflexão, pensava que teria sido mais prudente esperar o dia seguinte e fazer uma viagem breve e rápida, do que ficar sujeito a mil contratempos e mil perigos, que no fim das contas nada adiantavam.
Na verdade já tinha anoitecido; e, ainda que conseguíssemos chegar à cidade por volta de nove ou dez horas, só no dia seguinte poderia ver Carlota e falar com ela.
Que adiantava toda a minha impaciência? Eu tinha matado um animal, tinha incomodado um pobre velho, gasto um monte de dinheiro, que poderia usar para ajudar alguém e feito essa caridade em nome e para lembrança dela.
Comecei a formar em minha mente uma triste idéia de mim; no meu modo de ver então as coisas, parecia que eu tinha feito do amor, que é uma sublime paixão, apenas uma estúpida mania; dizia a mim mesmo que o homem que não domina os seus sentimentos, é um escravo.
Tinha-me tornado filósofo, minha prima, mas com certeza você entenderá a razão.
Rodeado de água, dentro de uma canoa, por conta do vento e do mar, não podendo fazer nada para chegar ao meu destino a não ser esperar, só me restava lamentar e me arrepender do que tinha feito.
Por um momento pensei em me atirar na água e vencer a nado a distância que me separava dela; mas era noite, não tinha a luz para guiar-me, e me perderia naquele imenso mar.
Na verdade, do jeito que me encontrava aflito, eu nem sabia mesmo de que lado ficava a cidade.
Esperei então, e me arrependi sinceramente.
Dividi com o meu companheiro o lanche que tínhamos trazido; e fizemos um verdadeiro papel de contrabandistas ou piratas.
Caí na besteira de obrigá-lo a beber uma garrafa de vinho do Porto, eu bebi outra para acompanhá-lo. Pensava que deste modo ele renovaria as forças e chegaríamos mais depressa.
Quando acabamos a nossa magra refeição, o pescador começou a remar com uma força e um vigor que me reanimaram a esperança.
Assim, docemente envolvido pela idéia de vê-la e pelo barulho das ondas, com os olhos fixos na estrela da tarde, que desaparecia no horizonte e me sorria como que para me consolar, senti meus olhos fecharem-se, e dormi.
Quando acordei, minha prima, o sol derramava seus raios de ouro sobre o manto azulado das ondas: era dia claro.
Não sei onde estávamos; via ao longe algumas ilhas; o pescador dormia na proa, e ressonava como um bebê.
A canoa tinha vagado por conta da corrente; e o remo, que caiu naturalmente das mãos do velho, no momento em que ele cedeu à força invencível do sono, tinha desaparecido.
Estávamos no meio do mar, sem poder dar um passo, sem poder nos mexer.
Aposto, minha prima, que você acaba de dar uma risada, pensando na situação engraçada que eu estava vivendo; mas seria uma injustiça zombar de uma dor profunda, de uma angústia cruel como a que sofri naquele momento.
Os minutos e as horas, corriam de decepção em decepção; alguns barcos que passaram perto, apesar dos nossos gritos, seguiram o seu caminho, não podiam imaginar que com o tempo calmo e tranquilo que fazia, houvesse algum perigo para uma canoa que boiava tão levemente sobre as ondas.
O velho, que tinha acordado, nem se desculpava; mas a sua aflição era tão grande que quase me comoveu; o pobre homem arrancava os cabelos e mordia os beiços de raiva.
As horas correram assim nessa agonia do desespero. Chateados um com o outro, talvez culpando-nos mutuamente do que acontecia, não dissemos uma palavra, não fizemos um gesto.
Por fim anoiteceu. Não sei como não fiquei louco, lembrando-me de que estávamos no dia 18, e que o navio devia partir no dia seguinte.
Não era somente a idéia de uma ausência que me afligia; era também a lembrança do mal que ia causar a ela, que, não sabendo o que se passava, pensaria que eu era egoísta, acharia que eu a havia abandonado e que tinha ficado em Petrópolis, me divertindo.
Fiquei aterrorrizado com as conseqüências que poderia ter esse fato sobre a sua saúde tão frágil, sobre a sua vida, e me condenava já como assassino.
Lancei um olhar alucinado sobre o pescador e tive vontade de abraçá-lo e atirar-me com ele ao mar.
Oh! como sentia então o quanto o homem não é nada e a fraqueza da nossa raça, tão orgulhosa de sua superioridade e do seu poder!
De que me serviam a inteligência, a vontade e essa força invencível do amor, que me conduzia e me dava coragem para desafiar vinte vezes a morte?
Alguns metros d'água me retinham e me encadeavam naquele lugar como a um poste; a falta de um remo, isto é, de três palmos de madeira, criava para mim o impossível; um círculo de ferro me prendia, e para quebrar essa prisão, bastava-me que fosse um animal irracional.
A gaivota, que voava sobre as ondas com a ponta de suas asas brancas; o peixe, que fazia cintilar um momento seu dorso de escamas; o inseto, que vivia no meio das águas e plantas marinhas, eram reis dessa solidão, na qual o homem não podia sequer dar um passo.
Assim, blasfemando contra Deus e sua obra, sem saber o que fazia nem o que pensava, me entreguei à Providência divina; embrulhei-me no meu casaco, deitei e fechei os olhos, para não ver a noite passar e o dia nascer.
Tudo estava calmo e tranqüilo; as águas nem se moviam; apenas passava sobre o mar um sereno fino, que se diria hálito das ondas adormecidas.
De repente, me pareceu sentir que a canoa deixara de boiar à deriva; pensando que fosse ilusão, não me importei, até que um movimento contínuo e regular me convenceu.
Afastei a aba do casaco e olhei, com medo de me iludir; não vi o pescador; mas a alguns passos da proa percebi os rolos de espuma que formavam um corpo, agitando-se nas ondas.
Aproximei-me e vi o velho pescador, que nadava, puxando a canoa por uma corda que amarrara à cintura, para deixar-lhe os movimentos livres.
Admirei essa dedicação do pobre velho, que procurava remediar a sua falta fazendo um sacrifício que eu achava que era inútil: não era possível que um homem nadasse assim por muito tempo.
Dito e feito, passados alguns instantes, ele parou e saltou ligeiramente na canoa com medo de me acordar; a sua respiração fazia uma espécie de burburinho no seu peito largo e forte,
Bebeu um pouco de vinho e com o mesmo cuidado caiu na água e continuou a puxar a canoa.
Era alta noite quando nesse ritmo chegamos a uma espécie de praia, que teria quando muito duas dois quilômetros. O velho saltou e desapareceu.
Olhando para aquela escuridão, vi uma luz, que não pude distinguir se era fogo, se luz, senão quando uma porta, se abrindo e pude ver o interior de uma cabana.
O velho voltou com um outro homem, sentaram-se sobre uma pedra e começaram a falar em voz baixa. Comecei a ficar com medo; na verdade, minha prima, só me faltava, para completar a minha aventura, ter que lidar com ladrões.
A minha suspeita, porém, era injusta; os dois pescadores estavam à espera de dois remos que uma mulher lhes trouxe, e imediatamente embarcaram e começaram a remar com uma força espantosa.
A canoa resvalou sobre as ondas, ágil e veloz como um peixe.
Ergui-me para agradecer a Deus, ao céu, às estrelas, às águas, a toda a natureza enfim, o raio de esperança que me enviavam.
Uma faixa vermelha já se desenhava no horizonte; o oriente foi-se esclarecendo pouco a pouco, até que deixou aparecer o disco luminoso do sol.
A cidade começou a surgir, linda e graciosa.
A cada movimento de impaciência que eu fazia, os dois pescadores dobravam-se sobre os remos e a canoa voava. Assim nos aproximamos da cidade, passamos entre os navios, e nos dirigimos à Glória, onde pretendia desembarcar, para ficar mais próximo da casa dela.
Em um segundo tinha resolvido o que faria; chegar, vê-la, dizer-lhe que a queria, e embarcar nesse mesmo navio em que ela ia partir.
Não sabia que horas eram; mas há pouco havia amanhecido; tinha tempo para tudo, Eu só precisava de uma hora. Trocar dinheiro para Londres e a minha mala de viagem eram tudo o que eu precisava preparar; podia acompanhá-la ao fim do mundo.
Já via tudo cor-de-rosa, sorria e pensava na surpresa que ia fazer a ela que não me esperava mais.
A surpresa, porém, foi minha.
Quando passava diante do porto, descobri de repente o barco inglês: tinha começado a se mover vagarosamente em direção ao mar.
Carlota estava sentada sob o toldo do navio, com a cabeça encostada ao ombro de sua mãe e com os olhos no horizonte, na direção do lugar onde tínhamos passado a primeira e última hora de felicidade.
Quando me viu, fez um movimento como se quisesse lançar-se para mim; mas conteve-se, sorriu para sua mãe, e, cruzando as mãos no peito, ergueu os olhos ao céu, como para agradecer a Deus, ou para dirigir-lhe uma prece.
Trocamos um longo olhar, um desses olhares que levam toda a nossa alma e a trazem ainda palpitante das emoções que sentiu no outro coração; uma dessas correntes elétricas que ligam duas vidas em um só fio.
O vapor do barco, soltou um gemido surdo; as rodas abriram as águas; e o monstro marinho, rugindo, lançou-se ao mar.
Por muito tempo ainda vi o seu lenço branco agitar-se ao longe, como as asas brancas do meu amor, que fugia e voava ao céu.
O barco sumiu no horizonte.
Apresentação
Para os amantes das letras, que juntas dão vida à palavras, que reunidas formam pensamentos, tocam corações, abrem portas, alegram ambientes...Eis o seu lugar! Seja bem-vindo!
Junte suas letras, divirta-se!
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quarta-feira, 14 de abril de 2010
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Capítulo VIII - Cinco Minutos
DEVOREI toda esta carta em um fôlego só.
Meus olhos corriam sobre o papel como o meu pensamento, sem parar, sem hesitar, poderia até dizer sem respirar.
Quando acabei de ler, só tinha um desejo: era o de ir ajoelhar-me a seus pés e receber como uma bênção do céu esse amor sublime e santo.
Como sua mãe, lutaria contra o destino, eu a cercaria de tanto carinho e de tanta adoração, tornaria sua vida tão bela e tão tranqüila, prenderia tanto sua alma à terra, que seria impossível deixá-la partir.
Criaria para ela com o meu coração um mundo novo, sem as misérias e as lágrimas deste mundo em que vivemos; um mundo só de alegria, onde a dor e o sofrimento não pudessem entrar.
Pensava que devia haver no mundo algum lugar desconhecido, algum canto de terra ainda sem o contato do homem, onde a natureza intocada conservaria o perfume dos primeiros tempos da criação e o contato das mãos de Deus quando a desenvolveu.
Aí era impossível que o ar não desse vida; que o raio do sol não viesse carregado de um átomo de fogo celeste; que a água, as árvores, a terra, cheia de tanta força e de tanto energia, não transmitisse na criatura essa vitalidade poderosa da natureza no seu inicial esplendor.
Iríamos, então, a um desses lugares desconhecidos; o mundo abria-se diante de nós e eu me sentia com bastante força e bastante coragem para levar o minha amada além dos mares e das montanhas, até achar um lugar onde esconder a nossa felicidade.
Nesses lugares, tão espaçosos, tão amplos, não haveria sequer vida bastante para duas criaturas que apenas pediam um palmo de terra e um sopro de ar, a fim de poderem elevar a Deus, como uma prece constante, o seu amor tão puro?
Ela me dava vinte e quatro horas para pensar e eu não queria nem um minuto, nem um segundo.
Que me importavam o meu futuro e a minha existência se eu os sacrificaria de bom grado para dar a ela mais um dia de vida?
Todas estas ideias, minha prima, passavam pelo meu espirito, rápidas e confusas, enquanto eu fechava na caixinha de madeira os objetos preciosos que ela me enviou, anotei na minha carteira o seu endereço, escrito no fim da carta, e atravessei o espaço que me separava da porta do hotel.
Aí encontrei o empregado da noite seguinte.
— A que horas sai o barco da Estrela?
— Ao meio-dia.
Eram onze horas; no espaço de uma hora eu faria os quatro quilômetros que me separavam daquele porto.
Olhei ao meu redor com uma espécie de desespero.
Não tinha um trono, como Ricardo III, para oferecer em troca de um cavalo; mas tinha a realeza do nosso século, tinha dinheiro.
A dois passos da porta do hotel estava um cavalo, que o seu dono segurava pela rédea.
— Quero comprar este cavalo, eu disse, caminhando para ele, sem mesmo perder tempo em cumprimentá-lo.
— Não pretendia vendê-lo, respondeu-me o homem educadamente; mas, se o senhor está disposto a dar o preço que ele vale...
— Não importa o preço; compro o cavalo arreado como está.
O sujeito me olhou admirado; porque, pra falar a verdade, os seus arreios não valiam nada.
Quanto a mim, já tinha tirado as rédeas da mão do homem e, sentado no selim, esperava que me dissesse quanto tinha de lhe pagar.
— Não se assuste, fiz uma aposta e preciso de um cavalo para ganhá-la.
Com essa explicação, o homem pareceu compreender a natureza do meu ato e a pressa que eu tinha. Pegou o dinheiro sorrindo e disse, acenando para mim com as mãos, pois já estava dobrando a esquina:
— Espero que ganhe a aposta; o animal é excelente!
Na verdade era uma aposta que eu tinha feito comigo mesmo, ou antes com a minha razão, a qual me dizia que era impossível chegar a tempo de pegar o barco, e que eu tinha feito uma extravagância sem necessidade, pois bastava ter paciência por vinte e quatro horas.
Mas o amor não compreende esses cálculos e esses raciocínios próprios da fraqueza humana; criado com uma migalha do fogo divino, ele eleva o homem acima da terra, desprende-o do chão e dá-lhe força para dominar todos os obstáculos, para querer o impossível.
Esperar tranqüilamente um dia para dizer que eu a amava e queria amá-la com todo o culto e admiração que me inspirava a sua nobre renúncia, me parecia quase uma desonra.
Seria o mesmo que dizer a ela que tinha pensado friamente, que tinha pesado todos os prós e os contras do passo que ia dar, que havia calculado como um egoísta a felicidade que ela me oferecia.
Não só a minha alma se revoltava contra esta ideia; mas sabia que ela, com a sua extrema delicadeza de sentimento, embora não reclamasse, ficaria magoada por ser alvo de uma análise desse tipo.
A minha viagem foi uma corrida louca, furiosa, fantástica. O cavalo, passava por entre a cerração da manhã, que cobria os cumes da serra, como uma sombra que fugia rápida e veloz.
Diria até que alguma rocha colocada em uma das cabeças da montanha tinha-se soltado, e rolava surdamente pelas encostas tal o vento que fazia a passagem do cavalo.
As árvores, cercadas de neblina, fugiam diante de mim como fantasmas; o chão desaparecia sob os pés do animal; às vezes parecia que a terra ia faltar e que o cavalo e cavaleiro rolavam por algum desses abismos imensos e profundos.
Mas, de repente, entre uma aberta de neblina, eu vi a linha azulada do mar e fechei os olhos e apressei ainda mais o meu cavalo, gritando-lhe ao ouvido a palavra de Byron:
— Away!
Ele parecia me entender e avançava numa corrida desesperada; não galopava, voava; seus pés, como que conduzidos por quatro molas de aço, nem tocavam a terra.
Assim, minha prima, devorando o espaço e a distância, foi ele, o nobre animal, cair exausto a alguns passos apenas da praia; a coragem, as forças e a vida só o tinham abandonado no fim da viagem.
Em pé, ainda sobre o cadáver desse companheiro leal, avistei a poucos metros o barco que navegava ligeiramente para a cidade.
Alí fiquei, por quase uma hora, seguindo com os olhos esse barco que levava a minha amada; e quando o barco desapareceu, olhei ainda por bom tempo os flocos de fumaça que ele deixava no ar e que o vento desfazia a pouco e pouco.
Por fim, quando tudo desapareceu e que nada mais me falava dela, olhei ainda o mar por onde havia passado e o horizonte que a escondia dos meus olhos.
O sol soltava raios de fogo; mas eu nem me importava com o sol; todo o meu espírito e os meus sentidos se concentravam em um único pensamento; encontrá-la, vê-la em uma hora, em um momento, se possível fosse.
Um velho pescador arrastava nesse momento a sua canoa à praia.
Aproximei-me e disse-lhe:
— Meu amigo, preciso ir à cidade, perdi a barca e gostaria que você me levasse em sua canoa.
— Mas se eu acabei de chegar!
— Não importa; pagarei o seu trabalho, pago também o incômodo que isto lhe causa.
— Não posso, não, senhor, não é pelo dinheiro, mas é que passei a noite toda no mar e estou caindo de sono.
— Escute, meu amigo...
— Não perca seu tempo, senhor; quando eu digo não, é não; e está dito.
E o velho continuou a arrastar a sua canoa.
— Está bem, não vamos mais falar nisto; mas vamos conversar um pouco.
— Como senhor quiser.
— A sua pesca rende bastante?
— Que rende nada!...
— Mas então me diga: Se houvesse um jeito de ganhar em um só dia o que pode ganhar em um mês, não enjeitaria não é?
— Isto é coisa que se pergunte?
— Mesmo quando fosse preciso embarcar depois de passar uma noite em claro no mar?
— Ainda que devesse remar três dias e três noites, sem dormir nem comer.
— Nesse caso, meu amigo, prepare-se, que vai ganhar o seu mês de pescaria; leve-me à cidade.
— Ah! Assim já é outra coisa! Por que não disse logo?...
— E precisava explicar mais?!
— Bem diz o ditado que é falando que a gente se entende.
— Então está decidido. Vamos embarcar?
— Com licença; preciso de um instantinho para avisar minha mulher; mas é um passo lá e outro cá.
— Olhe, não demore; tenho muita pressa.
— É em um fechar de olhos, disse ele, correndo na direção da vila.
Mal ele tinha dado vinte passos, parou, hesitou, e por fim voltou lentamente pelo mesmo caminho.
Eu tremia; julgava que tinha se arrependido, que vinha apresentar-me algum novo empecilho. Chegou perto de mim de olhos baixos e coçando a cabeça.
— O que aconteceu, meu amigo? perguntei-lhe com uma voz que esforçava por ter calma.
- É que... o senhor disse que pagava um mês...
— Isso mesmo; e, se duvida, disse, levando a mão ao bolso.
— Não, senhor, Deus me livre de desconfiar do senhor!
Mas é que... bem, o mês agora tem menos um dia que os outros!
Não pude deixar de achar graça do medo do velho; nós estávamos no mês de fevereiro.
— Não se importe com isto; quando eu digo um mês, é um mês de trinta e um dias; os outros são meses aleijados, e não contam.
— É isso mesmo, disse o velho, rindo da minha idéia; assim como quem diz, um homem sem um braço. Ah!... ah!...
E, continuando a rir, seguiu para sua casa e desapareceu.
Quanto a mim, estava tão contente com a idéia de chegar à cidade em algumas horas, que não pude deixar também de rir do caráter original do pescador.
Estou contando a você essas cenas e as outras que seguiram com todos os detalhes por duas razões, minha prima.
A primeira é porque desejo que entenda bem o drama simples que decidi lhe contar; a segunda é porque tenho tantas vezes repassado na memória as menores particularidades dessa história, tenho ligado de tal maneira o meu pensamento a essas lembranças, que não quero deixar de fora nem um único detalhe; sinto que se fizesse isso, tiraria uma parte de minha vida.
Depois de duas horas de espera e de impaciência, embarquei nessa casquinha de noz, que saltou sobre as ondas, conduzida pelo braço ainda forte e ágil do velho pescador.
Antes de partir, mandei enterrar o meu pobre cavalo; não podia deixar assim exposto aos urubus o corpo desse nobre animal, que eu tinha tirado do seu dono, para sacrificá-lo para satisfação de um capricho meu.
Talvez isso lhe pareça uma infantilidade; mas você é mulher, minha prima, e deve saber que, quando se ama como eu amava, tem-se o coração tão cheio de afeição, que espalha uma atmosfera de sentimento em torno de nós que toma conta até dos objetos inanimados, quanto mais das criaturas, ainda irracionais, que um momento se ligaram à nossa existência para realização de um desejo.
Meus olhos corriam sobre o papel como o meu pensamento, sem parar, sem hesitar, poderia até dizer sem respirar.
Quando acabei de ler, só tinha um desejo: era o de ir ajoelhar-me a seus pés e receber como uma bênção do céu esse amor sublime e santo.
Como sua mãe, lutaria contra o destino, eu a cercaria de tanto carinho e de tanta adoração, tornaria sua vida tão bela e tão tranqüila, prenderia tanto sua alma à terra, que seria impossível deixá-la partir.
Criaria para ela com o meu coração um mundo novo, sem as misérias e as lágrimas deste mundo em que vivemos; um mundo só de alegria, onde a dor e o sofrimento não pudessem entrar.
Pensava que devia haver no mundo algum lugar desconhecido, algum canto de terra ainda sem o contato do homem, onde a natureza intocada conservaria o perfume dos primeiros tempos da criação e o contato das mãos de Deus quando a desenvolveu.
Aí era impossível que o ar não desse vida; que o raio do sol não viesse carregado de um átomo de fogo celeste; que a água, as árvores, a terra, cheia de tanta força e de tanto energia, não transmitisse na criatura essa vitalidade poderosa da natureza no seu inicial esplendor.
Iríamos, então, a um desses lugares desconhecidos; o mundo abria-se diante de nós e eu me sentia com bastante força e bastante coragem para levar o minha amada além dos mares e das montanhas, até achar um lugar onde esconder a nossa felicidade.
Nesses lugares, tão espaçosos, tão amplos, não haveria sequer vida bastante para duas criaturas que apenas pediam um palmo de terra e um sopro de ar, a fim de poderem elevar a Deus, como uma prece constante, o seu amor tão puro?
Ela me dava vinte e quatro horas para pensar e eu não queria nem um minuto, nem um segundo.
Que me importavam o meu futuro e a minha existência se eu os sacrificaria de bom grado para dar a ela mais um dia de vida?
Todas estas ideias, minha prima, passavam pelo meu espirito, rápidas e confusas, enquanto eu fechava na caixinha de madeira os objetos preciosos que ela me enviou, anotei na minha carteira o seu endereço, escrito no fim da carta, e atravessei o espaço que me separava da porta do hotel.
Aí encontrei o empregado da noite seguinte.
— A que horas sai o barco da Estrela?
— Ao meio-dia.
Eram onze horas; no espaço de uma hora eu faria os quatro quilômetros que me separavam daquele porto.
Olhei ao meu redor com uma espécie de desespero.
Não tinha um trono, como Ricardo III, para oferecer em troca de um cavalo; mas tinha a realeza do nosso século, tinha dinheiro.
A dois passos da porta do hotel estava um cavalo, que o seu dono segurava pela rédea.
— Quero comprar este cavalo, eu disse, caminhando para ele, sem mesmo perder tempo em cumprimentá-lo.
— Não pretendia vendê-lo, respondeu-me o homem educadamente; mas, se o senhor está disposto a dar o preço que ele vale...
— Não importa o preço; compro o cavalo arreado como está.
O sujeito me olhou admirado; porque, pra falar a verdade, os seus arreios não valiam nada.
Quanto a mim, já tinha tirado as rédeas da mão do homem e, sentado no selim, esperava que me dissesse quanto tinha de lhe pagar.
— Não se assuste, fiz uma aposta e preciso de um cavalo para ganhá-la.
Com essa explicação, o homem pareceu compreender a natureza do meu ato e a pressa que eu tinha. Pegou o dinheiro sorrindo e disse, acenando para mim com as mãos, pois já estava dobrando a esquina:
— Espero que ganhe a aposta; o animal é excelente!
Na verdade era uma aposta que eu tinha feito comigo mesmo, ou antes com a minha razão, a qual me dizia que era impossível chegar a tempo de pegar o barco, e que eu tinha feito uma extravagância sem necessidade, pois bastava ter paciência por vinte e quatro horas.
Mas o amor não compreende esses cálculos e esses raciocínios próprios da fraqueza humana; criado com uma migalha do fogo divino, ele eleva o homem acima da terra, desprende-o do chão e dá-lhe força para dominar todos os obstáculos, para querer o impossível.
Esperar tranqüilamente um dia para dizer que eu a amava e queria amá-la com todo o culto e admiração que me inspirava a sua nobre renúncia, me parecia quase uma desonra.
Seria o mesmo que dizer a ela que tinha pensado friamente, que tinha pesado todos os prós e os contras do passo que ia dar, que havia calculado como um egoísta a felicidade que ela me oferecia.
Não só a minha alma se revoltava contra esta ideia; mas sabia que ela, com a sua extrema delicadeza de sentimento, embora não reclamasse, ficaria magoada por ser alvo de uma análise desse tipo.
A minha viagem foi uma corrida louca, furiosa, fantástica. O cavalo, passava por entre a cerração da manhã, que cobria os cumes da serra, como uma sombra que fugia rápida e veloz.
Diria até que alguma rocha colocada em uma das cabeças da montanha tinha-se soltado, e rolava surdamente pelas encostas tal o vento que fazia a passagem do cavalo.
As árvores, cercadas de neblina, fugiam diante de mim como fantasmas; o chão desaparecia sob os pés do animal; às vezes parecia que a terra ia faltar e que o cavalo e cavaleiro rolavam por algum desses abismos imensos e profundos.
Mas, de repente, entre uma aberta de neblina, eu vi a linha azulada do mar e fechei os olhos e apressei ainda mais o meu cavalo, gritando-lhe ao ouvido a palavra de Byron:
— Away!
Ele parecia me entender e avançava numa corrida desesperada; não galopava, voava; seus pés, como que conduzidos por quatro molas de aço, nem tocavam a terra.
Assim, minha prima, devorando o espaço e a distância, foi ele, o nobre animal, cair exausto a alguns passos apenas da praia; a coragem, as forças e a vida só o tinham abandonado no fim da viagem.
Em pé, ainda sobre o cadáver desse companheiro leal, avistei a poucos metros o barco que navegava ligeiramente para a cidade.
Alí fiquei, por quase uma hora, seguindo com os olhos esse barco que levava a minha amada; e quando o barco desapareceu, olhei ainda por bom tempo os flocos de fumaça que ele deixava no ar e que o vento desfazia a pouco e pouco.
Por fim, quando tudo desapareceu e que nada mais me falava dela, olhei ainda o mar por onde havia passado e o horizonte que a escondia dos meus olhos.
O sol soltava raios de fogo; mas eu nem me importava com o sol; todo o meu espírito e os meus sentidos se concentravam em um único pensamento; encontrá-la, vê-la em uma hora, em um momento, se possível fosse.
Um velho pescador arrastava nesse momento a sua canoa à praia.
Aproximei-me e disse-lhe:
— Meu amigo, preciso ir à cidade, perdi a barca e gostaria que você me levasse em sua canoa.
— Mas se eu acabei de chegar!
— Não importa; pagarei o seu trabalho, pago também o incômodo que isto lhe causa.
— Não posso, não, senhor, não é pelo dinheiro, mas é que passei a noite toda no mar e estou caindo de sono.
— Escute, meu amigo...
— Não perca seu tempo, senhor; quando eu digo não, é não; e está dito.
E o velho continuou a arrastar a sua canoa.
— Está bem, não vamos mais falar nisto; mas vamos conversar um pouco.
— Como senhor quiser.
— A sua pesca rende bastante?
— Que rende nada!...
— Mas então me diga: Se houvesse um jeito de ganhar em um só dia o que pode ganhar em um mês, não enjeitaria não é?
— Isto é coisa que se pergunte?
— Mesmo quando fosse preciso embarcar depois de passar uma noite em claro no mar?
— Ainda que devesse remar três dias e três noites, sem dormir nem comer.
— Nesse caso, meu amigo, prepare-se, que vai ganhar o seu mês de pescaria; leve-me à cidade.
— Ah! Assim já é outra coisa! Por que não disse logo?...
— E precisava explicar mais?!
— Bem diz o ditado que é falando que a gente se entende.
— Então está decidido. Vamos embarcar?
— Com licença; preciso de um instantinho para avisar minha mulher; mas é um passo lá e outro cá.
— Olhe, não demore; tenho muita pressa.
— É em um fechar de olhos, disse ele, correndo na direção da vila.
Mal ele tinha dado vinte passos, parou, hesitou, e por fim voltou lentamente pelo mesmo caminho.
Eu tremia; julgava que tinha se arrependido, que vinha apresentar-me algum novo empecilho. Chegou perto de mim de olhos baixos e coçando a cabeça.
— O que aconteceu, meu amigo? perguntei-lhe com uma voz que esforçava por ter calma.
- É que... o senhor disse que pagava um mês...
— Isso mesmo; e, se duvida, disse, levando a mão ao bolso.
— Não, senhor, Deus me livre de desconfiar do senhor!
Mas é que... bem, o mês agora tem menos um dia que os outros!
Não pude deixar de achar graça do medo do velho; nós estávamos no mês de fevereiro.
— Não se importe com isto; quando eu digo um mês, é um mês de trinta e um dias; os outros são meses aleijados, e não contam.
— É isso mesmo, disse o velho, rindo da minha idéia; assim como quem diz, um homem sem um braço. Ah!... ah!...
E, continuando a rir, seguiu para sua casa e desapareceu.
Quanto a mim, estava tão contente com a idéia de chegar à cidade em algumas horas, que não pude deixar também de rir do caráter original do pescador.
Estou contando a você essas cenas e as outras que seguiram com todos os detalhes por duas razões, minha prima.
A primeira é porque desejo que entenda bem o drama simples que decidi lhe contar; a segunda é porque tenho tantas vezes repassado na memória as menores particularidades dessa história, tenho ligado de tal maneira o meu pensamento a essas lembranças, que não quero deixar de fora nem um único detalhe; sinto que se fizesse isso, tiraria uma parte de minha vida.
Depois de duas horas de espera e de impaciência, embarquei nessa casquinha de noz, que saltou sobre as ondas, conduzida pelo braço ainda forte e ágil do velho pescador.
Antes de partir, mandei enterrar o meu pobre cavalo; não podia deixar assim exposto aos urubus o corpo desse nobre animal, que eu tinha tirado do seu dono, para sacrificá-lo para satisfação de um capricho meu.
Talvez isso lhe pareça uma infantilidade; mas você é mulher, minha prima, e deve saber que, quando se ama como eu amava, tem-se o coração tão cheio de afeição, que espalha uma atmosfera de sentimento em torno de nós que toma conta até dos objetos inanimados, quanto mais das criaturas, ainda irracionais, que um momento se ligaram à nossa existência para realização de um desejo.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Capítulo VII - Cinco Minutos
Continuei a ler:
"Estava condenada a morrer; estava com uma doença fatal e traiçoeira, que chega de mansinho no meio dos prazeres e dos risos da vida., nos deixa de cama , e da cama leva ao túmulo, depois de ter rido da natureza, transformando as suas belas criações em múmias.
É impossível descrever para você o que se passou então comigo; foi um desespero mudo e concentrado, mas que me deixou em uma dor profunda; foi uma angústia forte e cruel.
A minha vida estava apenas no começo e já recebia o bafo da morte!
Meus sonhos de futuro, minhas tão risonhas esperanças, meu puro amor, que nem sequer ainda tinha recebido o primeiro sorriso, este céu, que há pouco me parecia tão brilhante, tudo isto era uma visão que ia sumir, uma luz que brilhava prestes a se apagar.
Foi preciso um esforço sobre-humano para esconder de minha mãe a certeza que eu tinha sobre o meu estado e para rir dos seus temores, que eu dizia ser imaginários.
Boa mãe! Desde então só viveu exclusivamente para mim, para cuidar de mim com esse carinho e essa proteção que Deus deu ao coração materno, para envolver-me com suas preces, para lutar com a força de amor e de dedicação contra o destino.
Logo no dia seguinte fomos para Andaraí, onde ela alugou uma chácara, e aí, graças a seus cuidados, adquiri tanta saúde, tanta força, que ao me ver, acharia que estava boa se não fosse o diagnóstico fatal que pesava sobre mim.
Que tesouro de sentimento e de delicadeza que é um coração de mãe, meu querido! Que tato delicado, que sensibilidade apurada, possui esse amor sublime!
Nos primeiros dias, quando ainda estava muito abatida e era obrigada a agasalhar-me, se visse como ela pressentia as rajadas de um vento frio antes que ele agitasse os galhos das árvores do jardim, como adivinhava a menor neblina antes que a primeira gota umedecesse a laje do nosso terraço!
Fazia tudo para distrair-me; brincava comigo como uma colega de colégio; achava prazer nas menores coisas para me animar a imitá-la; tornava-se menina e obrigava-me a cuidar da aparência.
Enfim, meu querido, se fosse te contar tudo, escreveria um livro e esse livro deve ter lido no coração de tua mãe, porque todas as mães se parecem.
Ao fim de um mês tinha recobrado a saúde para todos, exceto para mim, que às vezes sentia algo como uma contração, que não era dor, mas que me dizia que o mal estava ali, e dormia apenas.
Foi nesta ocasião que te encontrei no ônibus de Andaraí; quando você entrou, a luz do lampião iluminou seu rosto e eu te reconheci.
Faz idéia que emoção senti quando se sentou perto de mim?
O mais você sabe; eu te amava e estava tão feliz de te-lo do meu lado, de apertar a tua mão, que nem me lembrava como devia parecer ridícula para você uma mulher que, sem te conhecer, te permitia tanto.
Quando nos separamos, arrependi-me do que tinha feito.
Com que direito eu ia perturbar a tua felicidade, condena-lo a um amor infeliz e obriga-lo a unir tua vida a uma existência triste, que talvez não pudesse te dar mais que os tormentos de conviver por muito tempo com uma pessoa a beira da morte?!
Eu te amava; mas, já que Deus não me tinha concedido a graça de ser tua companheira neste mundo, não devia ir roubar ao teu lado e no teu coração o lugar que outra mais feliz, porém menos dedicada, teria de ocupar.
Continuei a ama-lo, mas impus a mim mesma o sacrifício de nunca ser amada, por você.
Vê, meu querido, que não era egoísta e preferia a tua à minha felicidade. Tu farias o mesmo, estou certa.
Aproveitei o mistério do nosso primeiro encontro e esperei que em alguns dias você esqueceria aquele encontro quebrasse o único e bem frágil laço que te prendia a mim.
Deus não quis que acontecesse assim; vendo-o só em um baile, tão triste, tão pensativo, procurando um ser invisível, uma sombra e querendo descobrir os seus vestígios em algum dos rostos que passavam diante de ti, senti um prazer imenso.
Percebi que você me amava; e, perdoa, fiquei orgulhosa dessa paixão ardente, que uma só palavra minha havia criado, desse poder do meu amor, que, por uma força de atração inexplicável, tinha te ligado à minha sombra.
Não pude resistir.
Aproximei-me, e lhe disse uma palavra sem que tivesse tempo de me ver; foi essa mesma palavra que resume todo o poema do nosso amor e que, depois do primeiro encontro, era, como ainda hoje, a minha prece de todas as noites.
Sempre que me ajoelho diante do meu crucifixo de marfim, depois de minha oração, ainda com os olhos na cruz e o pensamento em Deus, chamo a tua imagem para pedir-lhe que não te esqueças de mim.
Quando você se voltou ao som da minha voz, eu entrei rapidamente no banheiro; e pouco depois saí daquele baile, onde apenas acabava de entrar, tremendo por causa da minha imprudência, mas alegre e feliz por ter visto você mais uma vez.
Deve entender agora o quanto sofri no teatro quando me fez aquela acusação injusta, no momento mesmo em que a Charton cantava a ária da Traviata.
Não sei como não me traí naquele momento e não te disse tudo; o teu futuro, porém, era sagrado para mim, e eu não devia destruí-lo para satisfação de meu amor próprio ofendido.
No dia seguinte escrevi para você; e assim, sem me trair, pude ao menos fazer com que pensasse bem de mim; doía-me muito que, ainda mesmo não me conhecendo, tivesse uma idéia tão injusta e tão falsa sobre mim.
Preciso dizer-lhe que no dia seguinte ao do nosso primeiro encontro, tínhamos voltado à cidade, e eu te via passar todos os dias diante de minha janela, quando fazia o teu passeio de todos os dias.
Por detrás das cortinas, seguia-o com o olhar, até que desaparecia no fim da rua, e este prazer, rápido como era, alimentava o meu amor, acostumado a viver de tão pouco.
Depois da minha carta você deixou de passar dois dias, eu estava de viagem marcada para este lugar onde me encontrou e de onde deveria sair apenas para embarcar em um navio inglês.
Minha mãe, incansável nos seus cuidados, quer levar-me à Europa para um passeio pela Itália, pela Grécia, por todos os países de um clima doce.
Ela diz que é para mostrar-me os grandes modelos de arte e alegrar o meu espírito, mas eu sei que essa viagem é a sua única esperança, que não podendo fazer nada contra a minha doença, quer ao menos ficar próxima de mim por mais algum tempo.
Acha que a viagem me dará mais alguns dias de vida, como se estas sobras de vida valessem alguma coisa para quem já perdeu a sua juventude e o seu futuro.
Quando estava embarcando para cá, lembrei-me de que talvez não te visse mais e, diante desse último pensamento, desabei. Queria ter ao menos o consolo de dizer-lhe adeus!...
Era o último!
Escrevi então a segunda carta para você; preocupei-me com a tua demora, mas tinha uma quase certeza de que viria até mim.
Não me enganei.
Você veio, e toda a minha decisão, minha coragem cedeu, porque, sombra ou mulher, entendi que você me amava como eu te amo.
O mal estava feito.
Agora, meu amor, peço-te por mim, pelo amor que tem por mim, que pense no que vou te dizer, mas que pense com calma e tranqüilidade.
Para isto parti hoje de Petrópolis, sem te contar, e coloquei entre nós o espaço de vinte e quatro horas.
Desejo que não faça nada precipitadamente e que, antes de dizer qualquer palavra, tenha percebido todo o alcance que ela deve ter sobre o teu futuro.
Sabe pra onde vou, sabe que sou uma vítima, cuja hora está marcada, e que todo o meu amor, imenso, profundo, não pode te oferecer, talvez dentro de bem pouco tempo, nada mais que um sorriso contraído pela tosse, um olhar entristecido pela febre e carícias roubadas aos sofrimentos.
É triste; e não deve sacrificar assim a tua bela mocidade, que ainda te reserva tantas aventuras e talvez um amor muito especial.
Deixo para você uma foto minha, meus cabelos e minha história; guarde-os como uma lembrança e pense algumas vezes em mim: beije esta folha de papel, onde os meus lábios deixaram-te meu adeus.
Entretanto, meu querido, se, como você disse ontem, a felicidade é amar e sentir-se amado; se acha que tem força para compartilhar essa minha curta existência, esses poucos dias que me restam a passar sobre a terra, se quer me dar esse consolo, único que ainda embelezaria minha vida, vem!
Sim, vem! iremos pedir ao belo céu da Itália mais alguns dias de vida para nosso amor; iremos aonde você quiser, ou aonde nos levar o destino.
Viajantes pelas eternas solidões dos mares ou pelos lugares altos das montanhas, longe do mundo, sob o olhar protetor de Deus, à sombra dos cuidados de nossa mãe, viveremos tanto um como outro, encheremos de tanto amor os nossos dias, as nossas horas, os nossos instantes, que, por curta que seja a minha existência, teremos vivido por cada minuto séculos de amor e de felicidade.
Eu espero; mas temo.
Espero-o como a flor quase morta espera o raio de sol que deve aquecê-la, a gota de orvalho que pode animá-la, o hálito da brisa que vem despertá-la. Porque para mim o único céu que hoje me sorri, são teus olhos; o calor que pode me fazer viver, é o do teu abraço.
Entretanto temo, tenho medo por você, e quase peço a Deus que te inspire e te salve desse sacrifício talvez inútil!
Adeus para sempre, ou até amanhã!"
CARLOTA
"Estava condenada a morrer; estava com uma doença fatal e traiçoeira, que chega de mansinho no meio dos prazeres e dos risos da vida., nos deixa de cama , e da cama leva ao túmulo, depois de ter rido da natureza, transformando as suas belas criações em múmias.
É impossível descrever para você o que se passou então comigo; foi um desespero mudo e concentrado, mas que me deixou em uma dor profunda; foi uma angústia forte e cruel.
A minha vida estava apenas no começo e já recebia o bafo da morte!
Meus sonhos de futuro, minhas tão risonhas esperanças, meu puro amor, que nem sequer ainda tinha recebido o primeiro sorriso, este céu, que há pouco me parecia tão brilhante, tudo isto era uma visão que ia sumir, uma luz que brilhava prestes a se apagar.
Foi preciso um esforço sobre-humano para esconder de minha mãe a certeza que eu tinha sobre o meu estado e para rir dos seus temores, que eu dizia ser imaginários.
Boa mãe! Desde então só viveu exclusivamente para mim, para cuidar de mim com esse carinho e essa proteção que Deus deu ao coração materno, para envolver-me com suas preces, para lutar com a força de amor e de dedicação contra o destino.
Logo no dia seguinte fomos para Andaraí, onde ela alugou uma chácara, e aí, graças a seus cuidados, adquiri tanta saúde, tanta força, que ao me ver, acharia que estava boa se não fosse o diagnóstico fatal que pesava sobre mim.
Que tesouro de sentimento e de delicadeza que é um coração de mãe, meu querido! Que tato delicado, que sensibilidade apurada, possui esse amor sublime!
Nos primeiros dias, quando ainda estava muito abatida e era obrigada a agasalhar-me, se visse como ela pressentia as rajadas de um vento frio antes que ele agitasse os galhos das árvores do jardim, como adivinhava a menor neblina antes que a primeira gota umedecesse a laje do nosso terraço!
Fazia tudo para distrair-me; brincava comigo como uma colega de colégio; achava prazer nas menores coisas para me animar a imitá-la; tornava-se menina e obrigava-me a cuidar da aparência.
Enfim, meu querido, se fosse te contar tudo, escreveria um livro e esse livro deve ter lido no coração de tua mãe, porque todas as mães se parecem.
Ao fim de um mês tinha recobrado a saúde para todos, exceto para mim, que às vezes sentia algo como uma contração, que não era dor, mas que me dizia que o mal estava ali, e dormia apenas.
Foi nesta ocasião que te encontrei no ônibus de Andaraí; quando você entrou, a luz do lampião iluminou seu rosto e eu te reconheci.
Faz idéia que emoção senti quando se sentou perto de mim?
O mais você sabe; eu te amava e estava tão feliz de te-lo do meu lado, de apertar a tua mão, que nem me lembrava como devia parecer ridícula para você uma mulher que, sem te conhecer, te permitia tanto.
Quando nos separamos, arrependi-me do que tinha feito.
Com que direito eu ia perturbar a tua felicidade, condena-lo a um amor infeliz e obriga-lo a unir tua vida a uma existência triste, que talvez não pudesse te dar mais que os tormentos de conviver por muito tempo com uma pessoa a beira da morte?!
Eu te amava; mas, já que Deus não me tinha concedido a graça de ser tua companheira neste mundo, não devia ir roubar ao teu lado e no teu coração o lugar que outra mais feliz, porém menos dedicada, teria de ocupar.
Continuei a ama-lo, mas impus a mim mesma o sacrifício de nunca ser amada, por você.
Vê, meu querido, que não era egoísta e preferia a tua à minha felicidade. Tu farias o mesmo, estou certa.
Aproveitei o mistério do nosso primeiro encontro e esperei que em alguns dias você esqueceria aquele encontro quebrasse o único e bem frágil laço que te prendia a mim.
Deus não quis que acontecesse assim; vendo-o só em um baile, tão triste, tão pensativo, procurando um ser invisível, uma sombra e querendo descobrir os seus vestígios em algum dos rostos que passavam diante de ti, senti um prazer imenso.
Percebi que você me amava; e, perdoa, fiquei orgulhosa dessa paixão ardente, que uma só palavra minha havia criado, desse poder do meu amor, que, por uma força de atração inexplicável, tinha te ligado à minha sombra.
Não pude resistir.
Aproximei-me, e lhe disse uma palavra sem que tivesse tempo de me ver; foi essa mesma palavra que resume todo o poema do nosso amor e que, depois do primeiro encontro, era, como ainda hoje, a minha prece de todas as noites.
Sempre que me ajoelho diante do meu crucifixo de marfim, depois de minha oração, ainda com os olhos na cruz e o pensamento em Deus, chamo a tua imagem para pedir-lhe que não te esqueças de mim.
Quando você se voltou ao som da minha voz, eu entrei rapidamente no banheiro; e pouco depois saí daquele baile, onde apenas acabava de entrar, tremendo por causa da minha imprudência, mas alegre e feliz por ter visto você mais uma vez.
Deve entender agora o quanto sofri no teatro quando me fez aquela acusação injusta, no momento mesmo em que a Charton cantava a ária da Traviata.
Não sei como não me traí naquele momento e não te disse tudo; o teu futuro, porém, era sagrado para mim, e eu não devia destruí-lo para satisfação de meu amor próprio ofendido.
No dia seguinte escrevi para você; e assim, sem me trair, pude ao menos fazer com que pensasse bem de mim; doía-me muito que, ainda mesmo não me conhecendo, tivesse uma idéia tão injusta e tão falsa sobre mim.
Preciso dizer-lhe que no dia seguinte ao do nosso primeiro encontro, tínhamos voltado à cidade, e eu te via passar todos os dias diante de minha janela, quando fazia o teu passeio de todos os dias.
Por detrás das cortinas, seguia-o com o olhar, até que desaparecia no fim da rua, e este prazer, rápido como era, alimentava o meu amor, acostumado a viver de tão pouco.
Depois da minha carta você deixou de passar dois dias, eu estava de viagem marcada para este lugar onde me encontrou e de onde deveria sair apenas para embarcar em um navio inglês.
Minha mãe, incansável nos seus cuidados, quer levar-me à Europa para um passeio pela Itália, pela Grécia, por todos os países de um clima doce.
Ela diz que é para mostrar-me os grandes modelos de arte e alegrar o meu espírito, mas eu sei que essa viagem é a sua única esperança, que não podendo fazer nada contra a minha doença, quer ao menos ficar próxima de mim por mais algum tempo.
Acha que a viagem me dará mais alguns dias de vida, como se estas sobras de vida valessem alguma coisa para quem já perdeu a sua juventude e o seu futuro.
Quando estava embarcando para cá, lembrei-me de que talvez não te visse mais e, diante desse último pensamento, desabei. Queria ter ao menos o consolo de dizer-lhe adeus!...
Era o último!
Escrevi então a segunda carta para você; preocupei-me com a tua demora, mas tinha uma quase certeza de que viria até mim.
Não me enganei.
Você veio, e toda a minha decisão, minha coragem cedeu, porque, sombra ou mulher, entendi que você me amava como eu te amo.
O mal estava feito.
Agora, meu amor, peço-te por mim, pelo amor que tem por mim, que pense no que vou te dizer, mas que pense com calma e tranqüilidade.
Para isto parti hoje de Petrópolis, sem te contar, e coloquei entre nós o espaço de vinte e quatro horas.
Desejo que não faça nada precipitadamente e que, antes de dizer qualquer palavra, tenha percebido todo o alcance que ela deve ter sobre o teu futuro.
Sabe pra onde vou, sabe que sou uma vítima, cuja hora está marcada, e que todo o meu amor, imenso, profundo, não pode te oferecer, talvez dentro de bem pouco tempo, nada mais que um sorriso contraído pela tosse, um olhar entristecido pela febre e carícias roubadas aos sofrimentos.
É triste; e não deve sacrificar assim a tua bela mocidade, que ainda te reserva tantas aventuras e talvez um amor muito especial.
Deixo para você uma foto minha, meus cabelos e minha história; guarde-os como uma lembrança e pense algumas vezes em mim: beije esta folha de papel, onde os meus lábios deixaram-te meu adeus.
Entretanto, meu querido, se, como você disse ontem, a felicidade é amar e sentir-se amado; se acha que tem força para compartilhar essa minha curta existência, esses poucos dias que me restam a passar sobre a terra, se quer me dar esse consolo, único que ainda embelezaria minha vida, vem!
Sim, vem! iremos pedir ao belo céu da Itália mais alguns dias de vida para nosso amor; iremos aonde você quiser, ou aonde nos levar o destino.
Viajantes pelas eternas solidões dos mares ou pelos lugares altos das montanhas, longe do mundo, sob o olhar protetor de Deus, à sombra dos cuidados de nossa mãe, viveremos tanto um como outro, encheremos de tanto amor os nossos dias, as nossas horas, os nossos instantes, que, por curta que seja a minha existência, teremos vivido por cada minuto séculos de amor e de felicidade.
Eu espero; mas temo.
Espero-o como a flor quase morta espera o raio de sol que deve aquecê-la, a gota de orvalho que pode animá-la, o hálito da brisa que vem despertá-la. Porque para mim o único céu que hoje me sorri, são teus olhos; o calor que pode me fazer viver, é o do teu abraço.
Entretanto temo, tenho medo por você, e quase peço a Deus que te inspire e te salve desse sacrifício talvez inútil!
Adeus para sempre, ou até amanhã!"
CARLOTA
quarta-feira, 24 de março de 2010
Capítulo VI - Cinco Minutos
Eis o que ela me dizia:
"Devo-te uma explicação, meu querido.
Esta explicação é a história da minha vida, breve história, cuja parte mais bonita foi a sua passagem por ela.
Cinco meses antes do nosso primeiro encontro eu completava os meus dezesseis anos, a vida começava a sorrir para mim.
A educação rigorosa que minha mãe me deu, me conservou menina até àquela idade, e foi só quando ela julgou que era hora de eu conhecer o mundo tal como ele é, que eu perdi as minhas idéias de infância e as minhas inocentes ilusões.
A primeira vez que fui a um baile, fiquei deslumbrada no meio daquela multidão de homens e mulheres, que giravam em torno de mim sob uma atmosfera de luz, de música, de perfumes.
Tudo me causava espanto; esse abandono com que as mulheres se entregavam ao seus pares de valsa, esse sorriso constante e sem expressão que uma moça parece colocar no rosto na porta da entrada para só deixá-lo na saída, esses elogios sempre os mesmos e sempre sobre um tema banal, ao mesmo tempo que me deixavam curiosa, faziam desaparecer o entusiasmo.
Você estava nesse baile; foi a primeira vez que te vi.
Reparei que nessa multidão alegre e barulhenta você só não dançava, e passeava pelo salão como um espectador mudo e indiferente, ou talvez como um homem que procurava uma mulher.
Compreendi você e durante muito tempo, o segui com os olhos; ainda hoje me lembro dos teus menores gestos, da expressão do teu rosto e do sorriso de fina ironia que às vezes fugia dos teus lábios.
Foi a única recordação que trouxe dessa noite, e quando adormeci, os meus doces sonhos de infância, que, apesar do baile, vieram a minha mente, apenas foram interrompidos um instante pela tua imagem, que me sorria.
No dia seguinte renovei a minha existência, feliz, tranqüila e descuidosa, como costuma ser a vida de uma moça aos dezesseis anos.
Algum tempo depois fui a outros bailes e ao teatro, porque minha mãe, queria fazer que eu brilhasse para o mundo.
Quando cedia aos pedidos dela e ia me aprontar, enquanto preparava o meu simples traje, murmurava: — Talvez ele esteja.
E esta lembrança, não só me tornava alegre, mas fazia com que procurasse ficar mais bonita, para merecer um primeiro olhar.
Ultimamente era eu quem, cedendo a um sentimento que não sabia explicar, pedia a minha mãe para sair, só na esperança de encontrar-lo.
Você nem desconfiava então que, entre todos aqueles vultos indiferentes, havia um olhar que te seguia sempre e um coração que adivinhava os teus pensamentos, que se agigantava quando te via sorrir e contraía-se quando uma sombra deixava seu rosto triste.
Se diziam o teu nome perto de mim, ficava vermelha e na minha perturbação julgava que tinham lido esse nome nos meus olhos ou dentro de minh'alma, onde eu bem sabia que ele estava escrito.
E, entretanto, você nem sequer ainda tinha me visto; se teus olhos haviam passado alguma vez por mim, tinha sido em um desses momentos em que a luz se volta para o íntimo, e se olha, mas não se vê.
Consolava-me, porém, que algum dia o acaso nos uniria, e então, alguma coisa me dizia que seria impossível você não me amar.
O acaso aconteceu, mas quando a minha vida já estava completamente transformada.
Ao sair de um desses bailes, apanhei uma pequena constipação, mas não dei importância. Minha mãe teimava que eu estava doente, e eu achava apenas que estava um pouco pálida e sentia às vezes um ligeiro calafrio, que eu curava, sentando ao piano e tocando alguma música de bravura.
Um dia, porém, me senti muito abatida; tinha as mãos e os lábios em febre, a respiração era difícil, e ao menor esforço suava muito com uma transpiração que me parecia gelada.
Atirei-me sobre um sofá e, com a cabeça recostada ao colo de minha mãe, caí em um estado de sono que não sei quanto tempo durou. Lembro-me somente que, no momento em que ia acordando dessa sonolência que se apoderara de mim, vi minha mãe, sentada à cabeceira da minha cama, chorando, e um homem dizia-lhe algumas palavras de consolo, que eu ouvi como em sonho:
— Não se desespere, minha senhora; a ciência não é infalível, nem os meus diagnósticos são irrevogáveis.
Pode ser que a natureza e as viagens a salvem. Mas é preciso não perder tempo.
O homem partiu.
Não tinha compreendido as suas palavras, às quais não faziam o menor sentido.
Passando um instante, ergui tranqüilamente os olhos para minha mãe, que escondeu o lenço e o choro.
— Está chorando, mamãe?
— Não, minha filha, claro que não...
— Você está com os olhos cheios de lágrimas!... disse eu assustada.
— Ah! sim!... uma notícia triste que me contaram há pouco... sobre uma pessoa... que você não conhece.
— Quem é este senhor que estava aqui?
— É o Dr. Valadão, que veio visitar você.
— Então eu estou muito doente, mamãe?
— Não, minha filha, ele garantiu que você não tem nada; é apenas um probleminha de nada.
E minha querida mãe, não podendo mais conter as lágrimas que saltavam dos olhos, fugiu, dizendo que tinha algo importante para fazer.
Então, à medida que a minha inteligência ia ficando clara, comecei a refletir sobre o que tinha acontecido.
Aquele desmaio tão longo, aquelas palavras que eu ouvira quase em sonho, as lágrimas de minha mãe e a sua repentina aflição, o tom condoído com que o médico conversava com ela...
Um raio de luz esclareceu de repente o meu espírito.
Eu estava desenganada.
O poder da ciência, o olhar profundo, seguro, infalível, desse homem que lê no corpo humano como em um livro aberto, tinha visto no meu corpo algo imperceptível.
Era o verme que devia destruir as fontes da vida, apesar dos meus dezesseis anos, apesar de minha beleza e dos meus sonhos de felicidade!".
Aqui terminava a primeira folha, que eu acabei de ler entre as lágrimas que me inundavam os olhos e caíam sobre o papel.
Era este o segredo de sua estranha atitude; era a razão por que fugia sempre, por que se escondia, por que ainda no dia anterior dizia que tinha imposto a si mesma o sacrifício de nunca ser amada por mim.
Que atitude sublime, minha prima! E, como eu me sentia pequeno e mesquinho diante desse amor tão nobre!
"Devo-te uma explicação, meu querido.
Esta explicação é a história da minha vida, breve história, cuja parte mais bonita foi a sua passagem por ela.
Cinco meses antes do nosso primeiro encontro eu completava os meus dezesseis anos, a vida começava a sorrir para mim.
A educação rigorosa que minha mãe me deu, me conservou menina até àquela idade, e foi só quando ela julgou que era hora de eu conhecer o mundo tal como ele é, que eu perdi as minhas idéias de infância e as minhas inocentes ilusões.
A primeira vez que fui a um baile, fiquei deslumbrada no meio daquela multidão de homens e mulheres, que giravam em torno de mim sob uma atmosfera de luz, de música, de perfumes.
Tudo me causava espanto; esse abandono com que as mulheres se entregavam ao seus pares de valsa, esse sorriso constante e sem expressão que uma moça parece colocar no rosto na porta da entrada para só deixá-lo na saída, esses elogios sempre os mesmos e sempre sobre um tema banal, ao mesmo tempo que me deixavam curiosa, faziam desaparecer o entusiasmo.
Você estava nesse baile; foi a primeira vez que te vi.
Reparei que nessa multidão alegre e barulhenta você só não dançava, e passeava pelo salão como um espectador mudo e indiferente, ou talvez como um homem que procurava uma mulher.
Compreendi você e durante muito tempo, o segui com os olhos; ainda hoje me lembro dos teus menores gestos, da expressão do teu rosto e do sorriso de fina ironia que às vezes fugia dos teus lábios.
Foi a única recordação que trouxe dessa noite, e quando adormeci, os meus doces sonhos de infância, que, apesar do baile, vieram a minha mente, apenas foram interrompidos um instante pela tua imagem, que me sorria.
No dia seguinte renovei a minha existência, feliz, tranqüila e descuidosa, como costuma ser a vida de uma moça aos dezesseis anos.
Algum tempo depois fui a outros bailes e ao teatro, porque minha mãe, queria fazer que eu brilhasse para o mundo.
Quando cedia aos pedidos dela e ia me aprontar, enquanto preparava o meu simples traje, murmurava: — Talvez ele esteja.
E esta lembrança, não só me tornava alegre, mas fazia com que procurasse ficar mais bonita, para merecer um primeiro olhar.
Ultimamente era eu quem, cedendo a um sentimento que não sabia explicar, pedia a minha mãe para sair, só na esperança de encontrar-lo.
Você nem desconfiava então que, entre todos aqueles vultos indiferentes, havia um olhar que te seguia sempre e um coração que adivinhava os teus pensamentos, que se agigantava quando te via sorrir e contraía-se quando uma sombra deixava seu rosto triste.
Se diziam o teu nome perto de mim, ficava vermelha e na minha perturbação julgava que tinham lido esse nome nos meus olhos ou dentro de minh'alma, onde eu bem sabia que ele estava escrito.
E, entretanto, você nem sequer ainda tinha me visto; se teus olhos haviam passado alguma vez por mim, tinha sido em um desses momentos em que a luz se volta para o íntimo, e se olha, mas não se vê.
Consolava-me, porém, que algum dia o acaso nos uniria, e então, alguma coisa me dizia que seria impossível você não me amar.
O acaso aconteceu, mas quando a minha vida já estava completamente transformada.
Ao sair de um desses bailes, apanhei uma pequena constipação, mas não dei importância. Minha mãe teimava que eu estava doente, e eu achava apenas que estava um pouco pálida e sentia às vezes um ligeiro calafrio, que eu curava, sentando ao piano e tocando alguma música de bravura.
Um dia, porém, me senti muito abatida; tinha as mãos e os lábios em febre, a respiração era difícil, e ao menor esforço suava muito com uma transpiração que me parecia gelada.
Atirei-me sobre um sofá e, com a cabeça recostada ao colo de minha mãe, caí em um estado de sono que não sei quanto tempo durou. Lembro-me somente que, no momento em que ia acordando dessa sonolência que se apoderara de mim, vi minha mãe, sentada à cabeceira da minha cama, chorando, e um homem dizia-lhe algumas palavras de consolo, que eu ouvi como em sonho:
— Não se desespere, minha senhora; a ciência não é infalível, nem os meus diagnósticos são irrevogáveis.
Pode ser que a natureza e as viagens a salvem. Mas é preciso não perder tempo.
O homem partiu.
Não tinha compreendido as suas palavras, às quais não faziam o menor sentido.
Passando um instante, ergui tranqüilamente os olhos para minha mãe, que escondeu o lenço e o choro.
— Está chorando, mamãe?
— Não, minha filha, claro que não...
— Você está com os olhos cheios de lágrimas!... disse eu assustada.
— Ah! sim!... uma notícia triste que me contaram há pouco... sobre uma pessoa... que você não conhece.
— Quem é este senhor que estava aqui?
— É o Dr. Valadão, que veio visitar você.
— Então eu estou muito doente, mamãe?
— Não, minha filha, ele garantiu que você não tem nada; é apenas um probleminha de nada.
E minha querida mãe, não podendo mais conter as lágrimas que saltavam dos olhos, fugiu, dizendo que tinha algo importante para fazer.
Então, à medida que a minha inteligência ia ficando clara, comecei a refletir sobre o que tinha acontecido.
Aquele desmaio tão longo, aquelas palavras que eu ouvira quase em sonho, as lágrimas de minha mãe e a sua repentina aflição, o tom condoído com que o médico conversava com ela...
Um raio de luz esclareceu de repente o meu espírito.
Eu estava desenganada.
O poder da ciência, o olhar profundo, seguro, infalível, desse homem que lê no corpo humano como em um livro aberto, tinha visto no meu corpo algo imperceptível.
Era o verme que devia destruir as fontes da vida, apesar dos meus dezesseis anos, apesar de minha beleza e dos meus sonhos de felicidade!".
Aqui terminava a primeira folha, que eu acabei de ler entre as lágrimas que me inundavam os olhos e caíam sobre o papel.
Era este o segredo de sua estranha atitude; era a razão por que fugia sempre, por que se escondia, por que ainda no dia anterior dizia que tinha imposto a si mesma o sacrifício de nunca ser amada por mim.
Que atitude sublime, minha prima! E, como eu me sentia pequeno e mesquinho diante desse amor tão nobre!
sexta-feira, 5 de março de 2010
Capítulo V - Cinco Minutos

Assim ficamos muito tempo imóveis, ela, com a cabeça apoiada sobre o meu peito, eu, sob a impressão triste de suas palavras.
Por fim ergueu a cabeça; e, recobrando a sua serenidade disse-me com um tom doce e cheio de tristeza:
— Não pensa que melhor é esquecer do que amar assim?
— Não! Amar, sentir-se amado, é sempre uma alegria imensa e um grande consolo para a desgraça. O que é triste, o que é cruel, não é essa viuvez da alma separada de sua irmã, não; aí há um sentimento que vive, apesar da morte, apesar do tempo. É, sim, esse vazio do coração que não tem uma afeição no mundo e que passa como um estranho por entre os prazeres que o cercam.
— Que santo amor, meu Deus! Era assim que eu sonhava ser amada! ...
— E me pedia que te esquecesse!...
— Não! não! Fica comigo; quero que me ame ao menos...
— Não me fugirás mais?
— Não.
— E me deixará ver o rosto aquela que eu amo e que não conheço? perguntei, sorrindo.
— Deseja mesmo me ver?
— Imploro-te!
— Não sou eu tua?...
Corri para a saleta onde havia luz e coloquei o lampião sobre a mesa da sala em que estávamos.
Para mim, minha prima, era um momento solene; toda essa paixão violenta, incompreensível, todo esse amor ardente por um vulto de mulher, ia depender talvez de um olhar.
E tinha medo que desaparece, como um fantasma diante da realidade, essa visão poética de minha imaginação, essa criação que resumia todos os tipos.
Foi, portanto, com uma emoção extraordinária que, depois de colocar a luz, voltei-me.
Ah!...
Eu sabia que era bela; mas a minha imaginação apenas tinha esboçado o que Deus criara.
Ela me olhava e sorria.
Era um ligeiro sorriso, uma flor que se abria nos seus lábios, um reflexo que iluminava o seu lindo rosto.
Seus grandes olhos negros fitavam em mim um desses olhares serenos e aveludados que acariciam a alma.
Um anel de cabelos negros brincava-lhe sobre o ombro, fazendo sobressair a brancura de seu colo gracioso.
Tudo quanto a arte tem sonhado de belo desenhava-se nela, naqueles contornos harmoniosos que se destacavam entre as ondas de cambraia de seu roupão branco.
Vi tudo isto de um só olhar, rápido, ardente e fascinado! depois fui ajoelhar-me diante dela e fiquei a contemplá-la.
Ela me sorria sempre e se deixava admirar.
Por fim tomou-me a cabeça entre as mãos e seus lábios fecharam-me os olhos com um beijo.
— Você me ama, disse.
O sonho desapareceu.
A porta da sala se fechou atrás dela. Tinha fugido.
Voltei ao hotel.
Abri a minha janela e sentei-me olhando a noite.
A brisa trazia de vez em quando um aroma de plantas que me causava íntimo prazer.
Fazia lembrar-me da vida no campo, dessa existência doce e tranqüila que se passa longe das cidades, quase no meio da natureza.
Pensava como seria feliz, vivendo com ela em algum canto isolado, onde pudéssemos abrigar o nosso amor em um campo de flores e de relva.
Imaginava um sonho encantador e sentia-me tão feliz que não trocaria a minha cabana pelo mais rico palácio da terra.
Ela me amava.
Só essa idéia embelezava tudo para mim; a noite escura de Petrópolis parecia-me poética e o barulho triste das águas do do canal era agradável aos meus ouvidos.
Uma coisa, porém, perturbava essa felicidade; era um ponto negro, uma nuvem que escurecia o céu da minha noite de amor.
Lembrava-me daquelas palavras tão cheias de angústia e tão sentidas, que pareciam explicar a causa de sua reserva para comigo: havia nisto um qualquer coisa que eu não compreendia.
Mas esta lembrança desaparecia logo sob a impressão de seu sorriso, que eu tinha em minh'alma, de seu olhar, que eu guardava no coração, e de seus lábios, cujo contato ainda sentia.
Dormi embalado por estes sonhos e só acordei quando um raio de sol, alegre e travesso, bateu em meus olhos para dar-me o bom dia.
O meu primeiro pensamento foi ir até a minha casinha; estava fechada.
Eram oito horas.
Resolvi dar um passeio para disfarçar a minha impaciência; voltando ao hotel, o criado me disse que haviam trazido um objeto que recomendaram fosse entregue a mim logo.
Em Petrópolis não conhecia ninguém; devia ser dela.
Corri ao meu quarto e achei sobre a mesa uma caixinha de madeira; na tampa havia duas letras de tartaruga incrustadas: C. L.
A chave estava fechada em uma sobrecarta com endereço para mim; comecei a abrir a caixa com a mão trêmula e tomado por um triste pressentimento.
Parecia que dentro daquele cofre perfumado estava a minha vida, o meu amor, toda a minha felicidade.
Abri.
Continha o seu retrato, alguns fios de cabelos e duas folhas de papel escritas por ela e que li de surpresa em surpresa.
Capítulo IV - Cinco Minutos
A noite estava escura.
Era uma dessas noites de Petrópolis, cheia de nevoeiro e cerração.
Caminhávamos mais pelo tato do que pela vista, dificilmente diferenciávamos os objetos a uma pequena distância; e muitas vezes, quando o meu guia se apressava, o seu vulto perdia-se na escuridão.
Em alguns minutos chegamos em frente a um pequeno edifício construído a alguns passos do alinhamento, e cujas janelas estavam esclarecidas por uma luz interior.
É ali.
— Obrigado.
O criado voltou e eu fiquei junto dessa casa, sem saber o que ia fazer.
A idéia de que estava perto dela, que via a luz que a iluminava, que tocava a grama que ela pisara, fazia-me feliz.
É um sentimento único, minha prima! O amor que é insaciável e exigente e não se satisfaz com tudo quanto uma mulher pode dar, que deseja o impossível, às vezes contenta-se com um simples detalhe, com uma dessas emoções delicadas, com um desses nadas, que o coração transforma em um mundo novo e desconhecido.
Não pense, porém, que eu fui a Petrópolis só para ficar olhando uma janela fechada não; enquanto sentia esse prazer, pensava num jeito vê-la e falar com ela.
Mas como?...
Se soubesse todas as maneiras, cada qual mais extravagante, que inventou a minha imaginação! Se visse a elaboração firme com que eu pensava para descobrir uma forma de dizer que eu estava ali e a esperava!
Por fim achei uma; se não era o melhor, era a que eu tinha.
Desde que cheguei, tinha ouvido uns toques de piano, mas tão fraquinhos que pareciam tocados por uma mão distraída que roçava o teclado.
Isto me fez lembrar a bela música de Verdi tocada no dia em que a conheci; e foi quanto bastou.
Cantei, minha prima, ou antes assassinei aquela linda canção; os que me ouvissem iam me achar tomado por alguma loucura; mas ela me compreenderia.
E de fato, quando eu acabei de estragar com minha terrível voz esse trecho magnífico de harmonia e sentimento, o piano, que havia parado, soltou um som brilhante e sonoro, que ecoou no silêncio da noite.
Depois daquela cascata de sons majestosos, que se precipitavam em ondas de harmonia do meio daquele turbilhão de notas que se cruzavam, deslizou, suave e melancólica uma voz que sentia e palpitava, exprimindo todo o amor que respira a melodia maravilhosa de Verdi.
Era ela que cantava!
Oh! não posso contar-lhe, minha prima, a expressão profundamente triste, a angústia de que ela repassou aquela frase de despedida:
Non ti scordar di me.
Addio!...
Partia-me a alma.
Apenas acabou de cantar, vi desenhar-se uma sombra em uma das janelas; saltei a grade do jardim; mas as venezianas descidas não me permitiam ver o que se passava na sala.
Sentei-me sobre uma pedra e esperei.
Não ria, D...; estava resolvido a passar a noite ali ao relento, olhando para aquela casa e alimentando a esperança de que ela viria ao menos com uma palavra compensar o meu sacrifício.
Não me enganei.
Havia meia hora que a luz da sala tinha se apagado e que toda a casa parecia dormir, quando se abriu uma das portas do jardim e eu vi ou antes pressenti a sua sombra na sala.
Recebeu-me com surpresa, sem medo, naturalmente, e como se eu fosse seu irmão ou seu marido. É porque o amor puro tem bastante delicadeza e bastante confiança para dispensar a falsa vergonha de que às vezes costumam cercá-lo.
— Eu sabia que viria, disse-me ela.
— Oh! não me culpe! se soubesse!
— Eu culpar você? Mesmo que não viesse, não tinha o direito de reclamar.
— Por que não me ama!
— Pensa isto? disse-me com uma voz cheia de lágrimas.
— Não! não!... Perdoa!
Perdôo-te, meu amigo, como já te perdoei uma vez; julgas que fujo de você, que me escondo de ti, porque não te amo e, entretanto, não sabe que a maior felicidade para mim seria poder dar-te a minha vida.
— Mas então por que esse mistério?
— Esse mistério, não é uma coisa criada por mim e sim pelo acaso; é porque, meu amigo..., você não deveria me amar.
— Não devo te amar! Mas eu te amo!...
Ela recostou a cabeça ao meu ombro e eu senti uma lágrima cair sobre meu peito.
Estava tão perturbado, tão comovido dessa situação incompreensível, que me senti vacilar e deixei-me cair sobre o sofá.
Ela sentou-se junto de mim; e, tomando-me as duas mãos, disse-me um pouco mais calma:
— Você diz que me ama!
— Juro-te!
— Não é apenas uma ilusão, talvez?
— Se a vida não é uma ilusão, respondi, penso que não, porque a minha vida agora é você, ou antes, a tua sombra.
— Muitas vezes entende-se um capricho por amor; Você não sabe nada de mim, a não ser, como disse, a minha sombra!...
— Que me importa? ..
— E se eu fosse feia? disse ela, rindo.
— Tu és bela como um anjo! Tenho toda a certeza.
— Quem sabe?
— Pois bem; convence-me, disse eu, passando-lhe o braço pela cintura e procurando levá-la para uma sala vizinha, de onde vinham os raios de uma luz.
Ela desprendeu-se do meu braço.
A sua voz tornou-se grave e triste.
— Escuta, meu amigo; falando sério. Você diz que me ama; eu acredito, eu já sabia antes mesmo que me dissesse. As almas como as nossas quando se encontram, se reconhecem e se compreendem. Mas ainda é tempo; não acha que mais vale conservar uma doce recordação do que entregar-se a um amor sem esperança e sem futuro?...
— Não, mil vezes não! Não entendo o que quer dizer; o meu amor, o meu, não precisa de futuro e de esperança, porque viverá sempre!...
—É isso que eu temia; e, entretanto, eu sabia que seria assim; quando se tem a tua alma, ama-se uma só vez.
— Então por que exige de mim um sacrifício que sabe ser impossível?
— Porque..., disse ela com exaltação, porque, se há uma felicidade indefinível em duas almas que ligam sua vida, que se confundem na mesma existência, que só têm um passado e um futuro para ambas, que desde a flor da idade até à velhice caminham juntas para o mesmo horizonte, partilhando os seus prazeres e as suas mágoas, revendo-se uma na outra até o momento em que batem as asas e vão abrigar-se no seio de Deus, deve ser cruel, bem cruel, meu amigo, quando, tendo-se apenas encontrado, uma dessas duas almas irmãs fugir deste mundo, e a outra, viúva e triste, for condenada a levar sempre no seu peito uma idéia de morte, a trazer essa recordação, que, como um manto de luto, envolverá a sua bela mocidade, a fazer do seu coração, cheio de vida e de amor, um túmulo para guardar as cinzas do passado! Oh! deve ser horrível!...
A maneira exaltada com que falava tinha-se tornado uma espécie de delírio; sua voz, sempre tão doce e aveludada, parecia triste e ofegante pelo cansaço da respiração.
Ela caiu sobre o meu peito, com um terrivel acesso de choro e tosse.
Era uma dessas noites de Petrópolis, cheia de nevoeiro e cerração.
Caminhávamos mais pelo tato do que pela vista, dificilmente diferenciávamos os objetos a uma pequena distância; e muitas vezes, quando o meu guia se apressava, o seu vulto perdia-se na escuridão.
Em alguns minutos chegamos em frente a um pequeno edifício construído a alguns passos do alinhamento, e cujas janelas estavam esclarecidas por uma luz interior.
É ali.
— Obrigado.
O criado voltou e eu fiquei junto dessa casa, sem saber o que ia fazer.
A idéia de que estava perto dela, que via a luz que a iluminava, que tocava a grama que ela pisara, fazia-me feliz.
É um sentimento único, minha prima! O amor que é insaciável e exigente e não se satisfaz com tudo quanto uma mulher pode dar, que deseja o impossível, às vezes contenta-se com um simples detalhe, com uma dessas emoções delicadas, com um desses nadas, que o coração transforma em um mundo novo e desconhecido.
Não pense, porém, que eu fui a Petrópolis só para ficar olhando uma janela fechada não; enquanto sentia esse prazer, pensava num jeito vê-la e falar com ela.
Mas como?...
Se soubesse todas as maneiras, cada qual mais extravagante, que inventou a minha imaginação! Se visse a elaboração firme com que eu pensava para descobrir uma forma de dizer que eu estava ali e a esperava!
Por fim achei uma; se não era o melhor, era a que eu tinha.
Desde que cheguei, tinha ouvido uns toques de piano, mas tão fraquinhos que pareciam tocados por uma mão distraída que roçava o teclado.
Isto me fez lembrar a bela música de Verdi tocada no dia em que a conheci; e foi quanto bastou.
Cantei, minha prima, ou antes assassinei aquela linda canção; os que me ouvissem iam me achar tomado por alguma loucura; mas ela me compreenderia.
E de fato, quando eu acabei de estragar com minha terrível voz esse trecho magnífico de harmonia e sentimento, o piano, que havia parado, soltou um som brilhante e sonoro, que ecoou no silêncio da noite.
Depois daquela cascata de sons majestosos, que se precipitavam em ondas de harmonia do meio daquele turbilhão de notas que se cruzavam, deslizou, suave e melancólica uma voz que sentia e palpitava, exprimindo todo o amor que respira a melodia maravilhosa de Verdi.
Era ela que cantava!
Oh! não posso contar-lhe, minha prima, a expressão profundamente triste, a angústia de que ela repassou aquela frase de despedida:
Non ti scordar di me.
Addio!...
Partia-me a alma.
Apenas acabou de cantar, vi desenhar-se uma sombra em uma das janelas; saltei a grade do jardim; mas as venezianas descidas não me permitiam ver o que se passava na sala.
Sentei-me sobre uma pedra e esperei.
Não ria, D...; estava resolvido a passar a noite ali ao relento, olhando para aquela casa e alimentando a esperança de que ela viria ao menos com uma palavra compensar o meu sacrifício.
Não me enganei.
Havia meia hora que a luz da sala tinha se apagado e que toda a casa parecia dormir, quando se abriu uma das portas do jardim e eu vi ou antes pressenti a sua sombra na sala.
Recebeu-me com surpresa, sem medo, naturalmente, e como se eu fosse seu irmão ou seu marido. É porque o amor puro tem bastante delicadeza e bastante confiança para dispensar a falsa vergonha de que às vezes costumam cercá-lo.
— Eu sabia que viria, disse-me ela.
— Oh! não me culpe! se soubesse!
— Eu culpar você? Mesmo que não viesse, não tinha o direito de reclamar.
— Por que não me ama!
— Pensa isto? disse-me com uma voz cheia de lágrimas.
— Não! não!... Perdoa!
Perdôo-te, meu amigo, como já te perdoei uma vez; julgas que fujo de você, que me escondo de ti, porque não te amo e, entretanto, não sabe que a maior felicidade para mim seria poder dar-te a minha vida.
— Mas então por que esse mistério?
— Esse mistério, não é uma coisa criada por mim e sim pelo acaso; é porque, meu amigo..., você não deveria me amar.
— Não devo te amar! Mas eu te amo!...
Ela recostou a cabeça ao meu ombro e eu senti uma lágrima cair sobre meu peito.
Estava tão perturbado, tão comovido dessa situação incompreensível, que me senti vacilar e deixei-me cair sobre o sofá.
Ela sentou-se junto de mim; e, tomando-me as duas mãos, disse-me um pouco mais calma:
— Você diz que me ama!
— Juro-te!
— Não é apenas uma ilusão, talvez?
— Se a vida não é uma ilusão, respondi, penso que não, porque a minha vida agora é você, ou antes, a tua sombra.
— Muitas vezes entende-se um capricho por amor; Você não sabe nada de mim, a não ser, como disse, a minha sombra!...
— Que me importa? ..
— E se eu fosse feia? disse ela, rindo.
— Tu és bela como um anjo! Tenho toda a certeza.
— Quem sabe?
— Pois bem; convence-me, disse eu, passando-lhe o braço pela cintura e procurando levá-la para uma sala vizinha, de onde vinham os raios de uma luz.
Ela desprendeu-se do meu braço.
A sua voz tornou-se grave e triste.
— Escuta, meu amigo; falando sério. Você diz que me ama; eu acredito, eu já sabia antes mesmo que me dissesse. As almas como as nossas quando se encontram, se reconhecem e se compreendem. Mas ainda é tempo; não acha que mais vale conservar uma doce recordação do que entregar-se a um amor sem esperança e sem futuro?...
— Não, mil vezes não! Não entendo o que quer dizer; o meu amor, o meu, não precisa de futuro e de esperança, porque viverá sempre!...
—É isso que eu temia; e, entretanto, eu sabia que seria assim; quando se tem a tua alma, ama-se uma só vez.
— Então por que exige de mim um sacrifício que sabe ser impossível?
— Porque..., disse ela com exaltação, porque, se há uma felicidade indefinível em duas almas que ligam sua vida, que se confundem na mesma existência, que só têm um passado e um futuro para ambas, que desde a flor da idade até à velhice caminham juntas para o mesmo horizonte, partilhando os seus prazeres e as suas mágoas, revendo-se uma na outra até o momento em que batem as asas e vão abrigar-se no seio de Deus, deve ser cruel, bem cruel, meu amigo, quando, tendo-se apenas encontrado, uma dessas duas almas irmãs fugir deste mundo, e a outra, viúva e triste, for condenada a levar sempre no seu peito uma idéia de morte, a trazer essa recordação, que, como um manto de luto, envolverá a sua bela mocidade, a fazer do seu coração, cheio de vida e de amor, um túmulo para guardar as cinzas do passado! Oh! deve ser horrível!...
A maneira exaltada com que falava tinha-se tornado uma espécie de delírio; sua voz, sempre tão doce e aveludada, parecia triste e ofegante pelo cansaço da respiração.
Ela caiu sobre o meu peito, com um terrivel acesso de choro e tosse.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Capítulo III - Cinco Minutos
Ao chegar em casa no dia seguinte, achei em casa uma carta.
Antes de abri-la percebi que era dela, porque o envelope estava com o mesmo perfume que senti quando a conheci.
Eis o que dizia:
"Pensa mal de mim, meu amigo; nenhuma mulher pode desprezar um bom coração como o seu.
"Se me escondo, se fujo, é porque há um fatalidade que me obriga a fazer isso. E só Deus sabe quanto me custa este sacrifício, porque eu te amo!
Mas não devo ser egoísta e trocar sua felicidade por um amor desgraçado.
"Esqueça-me.
C.”
Reli não sei quantas vezes esta carta, e, apesar da delicadeza de sentimento que aparecia em suas palavras, o que para mim ficava bem claro é que ela continuava a fugir de mim.
Essa assinatura era a mesma letra que marcava o seu lenço e à que eu, desde a noite passada, tentava decifrar para encontrar um nome!
Fosse qual fosse esse motivo que ela chamava “uma fatalidade” e que eu supunha ser apenas desculpa, ou uma brincadeira sem graça, o melhor era aceitar o seu conselho e me esforçar para esquecê-la.
Refleti então friamente sobre o exagero da minha paixão e conclui que precisava tomar uma decisão definitiva.
Não era possível que continuasse a correr atrás de um fantasma que desaparecia quando ia tocá-lo.
Para grandes males os grandes remédios, como diz Hipócrates. Resolvi fazer uma viagem.
Mandei selar o meu cavalo, coloquei alguma roupa em um saco de viagem, embrulhei-me no meu casaco e saí, sem me importar com a manhã de chuva que fazia.
Não sabia para onde iria. O meu cavalo levou-me para o Engenho-Velho e eu daí me encaminhei para a Tijuca, onde cheguei ao meio-dia, todo molhado e cansado pelos maus caminhos.
Se algum dia se apaixonar, minha prima, aconselho as viagens como um remédio, talvez o único eficaz.
Tive um excelente almoço no hotel; fumei um charuto e dormi doze horas, sem ter um sonho, sem mudar de lugar.
Quando acordei, o dia começava a aparecer sobre as montanhas da Tijuca.
Uma bela manhã, fresca e cheia de gotas de orvalho, abria o seu manto azul por entre a cerração, que se desmanchava aos raios do sol.
A aparência desta natureza quase virgem, esse céu brilhante, essa luz admirável, caindo em cascatas de ouro sobre as encostas dos rochedos, tranquilizou completamente o meu espírito.
Fiquei alegre, o que há muito tempo não me acontecia.
Um outro hóspede, um inglês franco e cavalheiro, convidou-me para caçar com ele; ficamos o dia todo correndo atrás de duas ou três marrecas.
Assim passei nove dias na Tijuca, vivendo uma vida estúpida tanto quanto pode ser: dormindo, caçando e jogando bilhar.
Na tarde do décimo dia, quando já me imaginava perfeitamente curado e estava admirando o pôr-do-sol, e a lua, que derramava no espaço a sua luz doce e acetinada, fiquei triste de repente.
Não sei que caminhos tomavam os meus pensamentos; o fato é que daí a pouco descia a serra no meu cavalo, lamentando esses nove dias longe de casa, o que talvez me tivessem feito perder para sempre a minha desconhecida.
Acusava-me de infidelidade, de traição; o meu orgulho dizia-me que eu devia ao menos ter dado a ela o prazer de ver-me.
Que importava que ela me ordenasse que a esquecesse?
Não tinha confessado que me amava, e não devia eu resistir e vencer essa fatalidade, contra a qual ela, mulher frágil, não podia lutar?
Tinha vergonha de mim mesmo; achava-me egoísta, covarde, bruto, e revoltava-me contra tudo, contra o meu cavalo que me levou para Tijuca, e aquele hóspede, cuja simpatia me fez ficar mais tempo por lá.
Com estes questionamentos na mente e uma grande confusão de espírito cheguei à cidade, mudei de roupa e ia sair, quando o meu empregado me deu uma carta.
Era dela.
Senti uma surpresa misturada de alegria e de remorso:
"Meu amigo.
"Estou disposta a sacrificar o meu amor para a sua felicidade; mas ao menos deixe-me o consolo de amá-lo.
Há dois dias que espero em vão vê-lo passar e acompanhá-lo de longe com um olhar! Não estou reclamando; você não sabe nem deve saber em que ponto de seu caminho o som de seus passos faz bater mais forte meu coração.
Sigo hoje para Petrópolis, de onde voltarei breve; não lhe peço que me acompanhe, porque jamais deverá me conhecer, eu, uma sombra escura que passou um dia pelos sonhos dourados de sua vida.
Entretanto eu queria muito vê-lo mais uma vez, apertar a sua mão e dizer-lhe adeus para sempre”.
"C."
A carta tinha a data de 3; nós estávamos no dia 10; ela tinha partido há oito dias para Petrópolis e me esperava.
No dia seguinte embarquei na Prainha e fiz essa viagem da baía, de paisagem tão agradável, mas sem conseguir apreciar absolutamente nada.
Nem mesmo a majestade dessas montanhas de pedra, a poesia desse imenso mar, sempre calmo como um espelho, os grupos de ilhotas graciosas que circulam a baía, nada disto me chamava a atenção.
Só tinha uma idéia... chegar; e o barco seguia mais lento que meu pensamento.
Durante a viagem pensava nas coisas que a sua carta me revelara, e tentava lembrar de todas as ruas por onde costumava passar, para ver se adivinhava aquela onde ela morava e de onde, todos os dias, me via sem que eu percebesse.
Para um homem como eu, que andava todo o dia desde a manhã até a noite, a ponto de merecer que a senhora, minha prima, me apelidasse de Andarilho, este trabalho era muito difícil, quase impossível.
Quando cheguei a Petrópolis, eram cinco horas da tarde; estava quase noite.
Entrei no hotel suíço, ao qual nunca mais voltei, e enquanto me serviam um magro jantar, que era o meu almoço, pedi informações.
— Têm vindo estes dias muitas famílias? perguntei eu ao empregado.
— Não, senhor.
— Mas, há coisa de oito dias não vieram da cidade duas senhoras?
— Não tenho certeza.
— Pois pergunte, que preciso saber já; isto o ajudará a obter informações.
A cara fechada do moço abriu-se num sorriso ao ver a cor do dinheiro estendido e começou a soltar a língua .
— Talvez o senhor queira saber de uma senhora já idosa que veio acompanhada de sua filha?
— É isso mesmo.
— A moça parece-me doente; nunca a vejo sair.
— Onde está morando?
— Aqui perto, na rua de...
— Não conheço as ruas de Petrópolis; o melhor é você vir mostrar-me a casa,
— Sim senhor.
Saímos, eu e o rapaz, por uma das ruas da cidade em busca do endereço dela.
Antes de abri-la percebi que era dela, porque o envelope estava com o mesmo perfume que senti quando a conheci.
Eis o que dizia:
"Pensa mal de mim, meu amigo; nenhuma mulher pode desprezar um bom coração como o seu.
"Se me escondo, se fujo, é porque há um fatalidade que me obriga a fazer isso. E só Deus sabe quanto me custa este sacrifício, porque eu te amo!
Mas não devo ser egoísta e trocar sua felicidade por um amor desgraçado.
"Esqueça-me.
C.”
Reli não sei quantas vezes esta carta, e, apesar da delicadeza de sentimento que aparecia em suas palavras, o que para mim ficava bem claro é que ela continuava a fugir de mim.
Essa assinatura era a mesma letra que marcava o seu lenço e à que eu, desde a noite passada, tentava decifrar para encontrar um nome!
Fosse qual fosse esse motivo que ela chamava “uma fatalidade” e que eu supunha ser apenas desculpa, ou uma brincadeira sem graça, o melhor era aceitar o seu conselho e me esforçar para esquecê-la.
Refleti então friamente sobre o exagero da minha paixão e conclui que precisava tomar uma decisão definitiva.
Não era possível que continuasse a correr atrás de um fantasma que desaparecia quando ia tocá-lo.
Para grandes males os grandes remédios, como diz Hipócrates. Resolvi fazer uma viagem.
Mandei selar o meu cavalo, coloquei alguma roupa em um saco de viagem, embrulhei-me no meu casaco e saí, sem me importar com a manhã de chuva que fazia.
Não sabia para onde iria. O meu cavalo levou-me para o Engenho-Velho e eu daí me encaminhei para a Tijuca, onde cheguei ao meio-dia, todo molhado e cansado pelos maus caminhos.
Se algum dia se apaixonar, minha prima, aconselho as viagens como um remédio, talvez o único eficaz.
Tive um excelente almoço no hotel; fumei um charuto e dormi doze horas, sem ter um sonho, sem mudar de lugar.
Quando acordei, o dia começava a aparecer sobre as montanhas da Tijuca.
Uma bela manhã, fresca e cheia de gotas de orvalho, abria o seu manto azul por entre a cerração, que se desmanchava aos raios do sol.
A aparência desta natureza quase virgem, esse céu brilhante, essa luz admirável, caindo em cascatas de ouro sobre as encostas dos rochedos, tranquilizou completamente o meu espírito.
Fiquei alegre, o que há muito tempo não me acontecia.
Um outro hóspede, um inglês franco e cavalheiro, convidou-me para caçar com ele; ficamos o dia todo correndo atrás de duas ou três marrecas.
Assim passei nove dias na Tijuca, vivendo uma vida estúpida tanto quanto pode ser: dormindo, caçando e jogando bilhar.
Na tarde do décimo dia, quando já me imaginava perfeitamente curado e estava admirando o pôr-do-sol, e a lua, que derramava no espaço a sua luz doce e acetinada, fiquei triste de repente.
Não sei que caminhos tomavam os meus pensamentos; o fato é que daí a pouco descia a serra no meu cavalo, lamentando esses nove dias longe de casa, o que talvez me tivessem feito perder para sempre a minha desconhecida.
Acusava-me de infidelidade, de traição; o meu orgulho dizia-me que eu devia ao menos ter dado a ela o prazer de ver-me.
Que importava que ela me ordenasse que a esquecesse?
Não tinha confessado que me amava, e não devia eu resistir e vencer essa fatalidade, contra a qual ela, mulher frágil, não podia lutar?
Tinha vergonha de mim mesmo; achava-me egoísta, covarde, bruto, e revoltava-me contra tudo, contra o meu cavalo que me levou para Tijuca, e aquele hóspede, cuja simpatia me fez ficar mais tempo por lá.
Com estes questionamentos na mente e uma grande confusão de espírito cheguei à cidade, mudei de roupa e ia sair, quando o meu empregado me deu uma carta.
Era dela.
Senti uma surpresa misturada de alegria e de remorso:
"Meu amigo.
"Estou disposta a sacrificar o meu amor para a sua felicidade; mas ao menos deixe-me o consolo de amá-lo.
Há dois dias que espero em vão vê-lo passar e acompanhá-lo de longe com um olhar! Não estou reclamando; você não sabe nem deve saber em que ponto de seu caminho o som de seus passos faz bater mais forte meu coração.
Sigo hoje para Petrópolis, de onde voltarei breve; não lhe peço que me acompanhe, porque jamais deverá me conhecer, eu, uma sombra escura que passou um dia pelos sonhos dourados de sua vida.
Entretanto eu queria muito vê-lo mais uma vez, apertar a sua mão e dizer-lhe adeus para sempre”.
"C."
A carta tinha a data de 3; nós estávamos no dia 10; ela tinha partido há oito dias para Petrópolis e me esperava.
No dia seguinte embarquei na Prainha e fiz essa viagem da baía, de paisagem tão agradável, mas sem conseguir apreciar absolutamente nada.
Nem mesmo a majestade dessas montanhas de pedra, a poesia desse imenso mar, sempre calmo como um espelho, os grupos de ilhotas graciosas que circulam a baía, nada disto me chamava a atenção.
Só tinha uma idéia... chegar; e o barco seguia mais lento que meu pensamento.
Durante a viagem pensava nas coisas que a sua carta me revelara, e tentava lembrar de todas as ruas por onde costumava passar, para ver se adivinhava aquela onde ela morava e de onde, todos os dias, me via sem que eu percebesse.
Para um homem como eu, que andava todo o dia desde a manhã até a noite, a ponto de merecer que a senhora, minha prima, me apelidasse de Andarilho, este trabalho era muito difícil, quase impossível.
Quando cheguei a Petrópolis, eram cinco horas da tarde; estava quase noite.
Entrei no hotel suíço, ao qual nunca mais voltei, e enquanto me serviam um magro jantar, que era o meu almoço, pedi informações.
— Têm vindo estes dias muitas famílias? perguntei eu ao empregado.
— Não, senhor.
— Mas, há coisa de oito dias não vieram da cidade duas senhoras?
— Não tenho certeza.
— Pois pergunte, que preciso saber já; isto o ajudará a obter informações.
A cara fechada do moço abriu-se num sorriso ao ver a cor do dinheiro estendido e começou a soltar a língua .
— Talvez o senhor queira saber de uma senhora já idosa que veio acompanhada de sua filha?
— É isso mesmo.
— A moça parece-me doente; nunca a vejo sair.
— Onde está morando?
— Aqui perto, na rua de...
— Não conheço as ruas de Petrópolis; o melhor é você vir mostrar-me a casa,
— Sim senhor.
Saímos, eu e o rapaz, por uma das ruas da cidade em busca do endereço dela.
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Aluno Elidio